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Eudes Mazelli Escrivinhador e outras coisas
DAS HISTÓRIAS QUE ACONTECEM POR AÍ
CONTOS, CRÔNICAS E OUTROS ESCRITOS
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Domingo é dia de escrever besteiras Cronologicamente, sou da velha guarda, modelo 5.1. Também sempre preferi a música caipira e/ou o rock antes da jovem guarda. Também acompanhei passo a passo os caminhos da globalização e a vitória (aparente, talvez) do neoliberalismo sobre os sonhos de transformação do mundo da juventude “transviada” dos anos 60 – na verdade, prefiro a expressão “geração cabeça”. E tem mais; não me intimidei diante das dificuldades da informática – um verdadeiro monstro para muitos da minha geração - e posso até dizer que sou um “usuário avançado” do computador, com direito a formatar, alterar o set up e muitas coisas mais. Só numa coisa não mudei ou, pensando de outro modo, mudei sim, porém apenas na forma e não no conteúdo. É que não perco a minha “mania” de escrever. Quando jovem, lá pelos idos de 1968, 69 e adjacências, escrevia um diário, escrevia para pequenos jornais das muitas comunidades de jovens que se reuniam aos domingos, na “missa dos jovens”, cheguei a fundar um desses jornais, contribui com minhas descobertas para mudar os rumos da própria igreja (verdade mesmo é que acho que ajudei a acabar com a igreja), também dei minhas cacetadas contra o regime militar, ainda que não tenha pegado em armas e nem feito discursos em praças públicas, escrevi sobre o beijinho no rosto, cumprimento hoje tão comum, mas que na época era um “crime” sujeito a severas sanções sociais, escrevi sobre sexo, mini-saia, virgindade, preconceito racial... Enfim, sem esquecer que, na verdade, fui nada menos que uma simples gosta em meio aos cinco mares e oceanos, acredito que, de uma forma ou de outra, alguma coisa eu fiz para ajudar a transformar o mundo, contribuindo para que o jovem de hoje tenha a voz que não tinha antes dos anos 60, que a mulher de hoje tenha a autonomia que não tinha naquela época, que as chamadas minorias conquistassem seus espaços na sociedade, que a liberdade de expressão se transformasse em algo mais real do que era naqueles tempos... E tudo isso, graças à obediência da minha mão ou, melhor, ao sincronismo entre minhas idéias, meu cérebro e minha mão, pois a esta última sempre coube o papel maior de transformar em visível tudo aquilo que fervia no meu pensar – e que ainda ferve. Uma mão que primeiro conheceu o cabo da enxada, apreendendo tardiamente a escrever usando caneta tinteiro, descobrindo depois a esferográfica, passando pela máquina de escrever e chegando ao teclado de um computador. Como
eu disse, mudei a forma de escrever ou melhor, mudei a ferramenta, pois a
cabeça, as idéias e os escritos, ainda são os mesmos e não vivo sem
eles, assim como tem aqueles que não vivem sem a bebida, sem as drogas,
sem o cigarro... Aliás, embarcando na onda da propaganda, já fui
fumante, mas larguei o vício a tempo de salvar minha saúde e minha
dignidade. Só não consigo largar de escrever. O fato é que sempre me dá uma vontade louca de escrever sobre tudo o que está rolando no mundo. Mas escrever apenas é pouco; a vontade mesmo é escrever para criticar, mostrar o que está errado (segundo a minha visão), apontar o que pode dar certo (segundo a minha visão), fazer, enfim, alguma coisa que contribua para incutir na cabeça das pessoas idéias inovadoras que nos levem a um mundo melhor. Por sinal, essa é a diferença entre o rock primitivo e a dance music, entre a geração cabeça e a geração shopping center, entre os sonhadores e os individualistas. Sei que “... não sou único, e espero que um dia você se junte a nós...” Domingo, principalmente num domingo de manhã, é dia de se fazer muitas coisas: curar-se da ressaca do sábado, preparar-se para o churrasco e uma nova bebedeira no almoço, enfrentar a estrada engarrafada para chegar até a praia, imaginar que na parte da tarde pode-se ir a um shopping center e se divertir para valer, ou então não fazer nada. Mas como não sou muito chegado em nenhuma dessas atividades, e também não consigo ficar sem fazer nada; simplesmente escrevo, mesmo que sejam besteiras (na opinião de muitos) como tudo isso que acabei de escrever. Escrever me faz pensar, refletir, imaginar, ver como seria se fosse diferente, abrir-me a outras possibilidades... usar minha racionalidade. Escrever, na verdade, é um vício que não consigo largar – mesmo porque, nunca tentei. E tem gente que não gosta!
Sabedoria oriental uma ova! Ouvi dizer que, conforme prega a milenar sabedoria oriental, um homem se realiza quando faz três coisas na vida: planta uma árvore, escreve um livro e tem um filho. Mas esse negócio de milenar sabedoria oriental já me encheu e não me convenceu em nada. Desde que os Beatles foram para a Índia, há mais de quarenta anos, e John Lennon voltou decepcionado, acho que eu devia ter me decepcionado também e não ter permitido que fosse dado corda a essa onda de crença de que os orientais sabem viver melhor que nós, pobres ocidentais. Não sei, mas esse negócio de governo autoritário na China, devoção imperial no Japão, miséria absoluta na Índia - para não falar em Bangladesh, Paquistão... – tudo isso já me encheu, pois se isso é sabedoria, prefiro morrer burro. Mas deixa isso pra lá e vamos tratar da minha realização pessoal. A árvore eu plantei, não uma, mas várias. Acho que sou o único morador urbano que leva ao pé da letra a lei que determina a obrigatoriedade de deixar recuos na construção, na frente e nos fundos do terreno. Deixei os recuos e enchi de árvores, pequenas, amontoadas, não importa. E não fiz isso por causa da lei, mas porque gosto de árvores e me faz falta o verde. Fico imaginando se cada casa tivesse ao menos uma árvore... Além disso, contribuo com a diminuição das enchentes, pois a água da chuva tem por onde penetrar no solo. Mas o vizinho dos fundos já reclamou, o da esquerda já não fala mais comigo, e o da direita, que nem mora no local, é apenas proprietário, já me ameaçou várias vezes entrar com uma ação judicial para que eu corte minhas árvores, devido aos riscos que suas folhas oferecem para os quintais devidamente cimentados. Todos querem que eu corte minhas árvores, até minha mulher, ainda que veladamente. Por enquanto, estamos resistindo, eu e elas. Mas não sei até quando. Livros já escrevi vários, mas publicar que é bom, mesmo com alguns editores (editores?) interessados, neca de catibiriba... Eles publicam. Desde que enviei os originais, me torram a paciência com cartas padronizadas, e-mails e até telefonemas... Eles publicam ou, melhor, eles imprimem para mim um milheiro, dois milheiros, três... desde que eu pague em nada suaves parcelas e depois saia por aí com os livros debaixo do braço, tentando vender. Filhos? Bom, esses, sim, a verdadeira realização de um homem. Tive dois, já crescidos agora, dos quais nada tenho a reclamar, pelo contrário. Pelo menos isso, não é verdade? É melhor uma terça parte da realização preconizada pela sábia (sábia) filosofia oriental, do que nada. E tem mais uma coisa; meus filhos ninguém pode mandar cortar; meus filhos não precisam se publicados; meus...Só espero não começar a ouvir comentários da vizinhança de que um é do padeiro e o outro é... E não me venham com essa milenar sabedoria ocidental de que pai é aquele que cria! |